The Economist: A China deveria mudar seu modelo de crescimento para seu próprio bem
Resumo
A China consolidou liderança em manufatura sofisticada e tecnologia, provocando restrições comerciais globais; o artigo discute pressão para mudança do modelo de crescimento chinês focado em exportações.
No comércio internacional, as restrições são a mais sincera forma de reconhecimento da competitividade. Os fabricantes chineses se transformaram em rivais globais de peso, inclusive em indústrias sofisticadas que, até pouco tempo atrás, eram praticamente exclusividade dos países mais ricos.
Ultrapassaram as montadoras alemãs, saíram na frente dos construtores navais sul-coreanos e reduziram a diferença para os projetistas de chips americanos. O fato de líderes mundiais estarem correndo para conter a ameaça às suas indústrias nacionais mais estratégicas e evitar dependências consideradas arriscadas é uma prova do sucesso alcançado pela indústria chinesa.
Ainda neste mês, por exemplo, ministros da União Europeia se reunirão para avaliar medidas de resposta mais contundentes. Uma das propostas é exigir que as empresas europeias diversifiquem seus fornecedores, reduzindo a forte dependência de insumos chineses.
A evolução das exportações chinesas, que cresceram mais de 19% em maio em comparação com o mesmo período do ano anterior, é motivo de satisfação para os líderes do país. A contribuição do comércio para o crescimento ajudou a China a resistir ao estouro da bolha imobiliária em 2021. A posição dominante da China em muitas cadeias de suprimentos internacionais também lhe confere influência geopolítica em um mundo hostil.
Os líderes do país acreditam, com base em seus princípios histórico-materialistas, que a grandeza nacional reside na sofisticação tecnológica e no poderio industrial. O presidente Mao acreditava que o poder emanava da força das armas e que a indústria pesada fortalecia um país. Seus sucessores esperam que as exportações de alta tecnologia tornem a China indispensável.
Mas, embora seja motivo de orgulho para os líderes chineses, o avanço tecnológico do país não elevou o ânimo da população. A confiança do consumidor ainda não se recuperou dos lockdowns da covid-19 e da queda do mercado imobiliário, apesar da alta da bolsa de valores no final de 2024.

As vendas no varejo em abril aumentaram apenas 0,2% em comparação com o ano anterior, mesmo antes do ajuste pela inflação. As vendas de automóveis despencaram, caindo mais de um quinto. Julgando não pelo poderio industrial, mas pela saúde da economia como um todo, o modelo de crescimento da China está falhando.
Existem várias razões para essa incongruência. Ao contrário dos antigos períodos de expansão das exportações, que atraíram milhões de trabalhadores migrantes para fábricas no litoral, o sucesso mais recente da China não gerou muitos empregos. Os preços das exportações subiram mais rápido do que os volumes. E as principais indústrias chinesas não são mais intensivas em mão de obra.
Os gastos com veículos elétricos geram menos empregos por yuan do que um gasto equivalente em carros tradicionais ou casas novas. A proporção de trabalhadores migrantes que encontram emprego na indústria manufatureira caiu de quase 37% em 2010 para 28% no ano passado. Muitos, em vez disso, trabalham como entregadores ou em outras atividades da economia informal. Eles ocupam ciclovias, não linhas de montagem.
A indústria de alta tecnologia da China também está fortemente concentrada em algumas poucas cidades. Essa concentração geográfica é uma das fontes de sua força, permitindo que fornecedores se especializem, talentos se reúnam e ideias circulem. Mas também amplia a divisão entre as regiões líderes e as regiões em desenvolvimento.
O modelo de crescimento anterior da China, baseado na construção desenfreada de casas, estava disperso por todo o país, incluindo algumas regiões remotas e pouco promissoras que provavelmente deveriam ter sido deixadas de lado. O novo modelo da China é mais seletivo quanto à localização. A participação das províncias do interior na indústria chinesa caiu de quase 48% em 2013 para apenas 36% no ano passado.
Uma terceira razão pela qual o impulso da China na manufatura de alta tecnologia não conseguiu estimular uma recuperação mais ampla é fiscal. Indústrias emergentes deveriam ampliar a base tributária, ajudando a abastecer os cofres dos governos locais que as abrigam.
Mas, na China, o fluxo de recursos muitas vezes segue na direção oposta. Ansiosos por apoiar os campeões locais nas indústrias do futuro, os governos municipais e provinciais oferecem isenções fiscais e subsídios que corroem sua situação financeira. O apoio fiscal leva muitas empresas a entrarem em setores da moda, o que pode reduzir os lucros de concorrentes genuinamente eficientes.
No ano passado, a consultoria AlixPartners calculou que apenas 15 das 129 marcas de veículos elétricos da China seriam financeiramente viáveis até 2030.
À primeira vista, os triunfos das exportações chinesas deveriam ajudar a amenizar sua fragilidade econômica interna. Em vez disso, os dois parecem se reforçar mutuamente. O fraco consumo interno resulta em queda de preços, baixas taxas de juros e uma moeda desvalorizada, fatores que tornam os produtos chineses ainda mais competitivos nos mercados mundiais.
O crescimento das exportações também impulsiona o crescimento, permitindo que os formuladores de políticas da China adiem medidas mais rigorosas para restaurar a confiança do consumidor, como maiores gastos sociais ou um novo esforço para estabilizar o mercado imobiliário.
Diante da dominância da indústria manufatureira chinesa, os líderes europeus buscam diversificar as fontes de abastecimento de seu continente. Os líderes chineses deveriam fazer mais para diversificar as fontes de demanda de seu país.
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