Dívida no agro: É tempo de parar de procurar culpados e trabalhar para estabilizar a atividade rural
Resumo
Setor agropecuário enfrenta crise de endividamento causada por aumento de custos, queda de preços de commodities e restrições comerciais internacionais.
Antiga anedota contava que o comandante de um destacamento militar havia planejado um grande exercício de tiro ao alvo para aperfeiçoar a pontaria da tropa. No dia marcado o programa não aconteceu. Irritado, o comandante perguntou ao encarregado o porquê do adiamento.
Sem graça, este respondeu que havia suspendido o treinamento por cinco razões, e a primeira era a falta de munição. Ainda mais bravo, o chefe disse que não precisava nem dizer as outras quatro. E quis saber de quem era a culpa. Aí se instalou a confusão.
Estamos vivendo um período extremamente complicado para o agro brasileiro, com aumento do endividamento e da inadimplência de produtores.
Os custos de produção aumentaram, os preços das commodities caíram, as recuperações judiciais reduziram a oferta de crédito, alguns mercados relevantes passaram a criar dificuldades para importar nossos produtos, as guerras limitaram a oferta de insumos essenciais para o plantio, desastres climáticos ficaram mais frequentes e mais vigorosos, acordos comerciais com grandes parceiros não acontecem (e quando entram em funcionamento, mesmo provisório, logo surge algum obstáculo às nossas exportações, como aconteceu entre UE e Mercosul no caso da proteína animal brasileira), tarifas surpreendentes (ou nem tanto) inibem resultado positivo no comércio internacional, falta mão de obra capacitada para implementar medidas de gestão na área de IA, mudam as regras em temas fundamentais como o tributário e o trabalhista e ainda por cima tem a ameaça de um El Niño mais violento para a próxima safra.
Aprovado pelo Senado um necessário socorro aos produtores endividados, ainda a ser referendado pelo governo, há dúvidas sobre como ficam os recursos para o Plano de Safra. A tempestade perfeita se acentua. E a pergunta recorrente é: “de quem é a culpa”?
Do setor privado que quer menos burocracia? Da burocracia que não prestou atenção aos sinais dados por governos dos países ou blocos importadores dos nossos produtos? De líderes mundiais com atitudes incertas? Da polarização política por causa das eleições?
É tempo de parar de procurar culpados e trabalhar pela estabilização da atividade rural.
Mas vale lembrar, como bem pontuou o estudioso Pedro Camargo Neto nesta semana, que a Selic entre 2020 e este ano aumentou sete vezes!!!
E também nesta semana o governo contingenciou o já minguado Orçamento para o seguro rural. Um seguro decente mitigaria grande parte dos problemas referidos.
Com certeza esta é a munição que falta nesta complexa campanha!