EstadãoJosé Roberto Mendonça de Barroshá 8 h

Insensatez lá e aqui: EUA insiste em tarifas equivocadas; e o Brasil, na irresponsabilidade fiscal

Macro

Resumo

Análise crítica das tarifas de Trump ao Brasil e da irresponsabilidade fiscal doméstica que comprometem o crescimento econômico e a produtividade do país.

As tarifas de Trump são insensatas e um equívoco estratégico e econômico, o que inclui as aplicadas ao Brasil.

A existência de um persistente saldo comercial a favor dos EUA torna o evento ainda mais incompreensível.

Os dados são inequívocos. De janeiro a maio deste ano, comparado com o mesmo período de 2025, as exportações brasileiras caíram 16%; as importações, 13%; e a corrente de comércio, 14%.

Este movimento apenas acelerou a perda de importância dos EUA no nosso comércio. No início do século, era o destino de 24% de nossas exportações e origem de 23% das importações. Esses valores foram caindo em 2025 e se reduziram a 11% e 16% do total. Após o tarifaço esta redução se acelerou: hoje, são 9% e 13% do total.

Estratégia comercial americana prejudica o dólar; e o descontrole de contas públicas, o real

O Brasil vem cada vez mais se voltando para a Ásia, a região que mais cresce no mundo. Aceleramos também acordos comerciais com União Europeia, Canadá, Índia e outros destinos.

O tarifaço teve um efeito negligível do ponto de vista macroeconômico. Entretanto, ele não foi isento de custos, pois vários setores foram bastante afetados. Nos primeiros cinco meses do ano, 14 grupos de produtos viram quedas da receita de vendas superiores a US$ 50 milhões e incluem petróleo, café, frutas, madeiras, óleos vegetais, granitos, açúcar, papel, máquinas, produtos químicos, tratores e outros veículos.

Ao mesmo tempo, é cada vez mais claro que nosso País tem um grave problema: crescemos pouco e sistematicamente abaixo da média global. A produtividade está estagnada e a taxa de investimento encolheu. As finanças públicas crescem desorganizadamente e pressionam as taxas de juros.

É também evidente que temos um grande problema de governança, expresso na irresponsabilidade fiscal que explode especialmente nos anos eleitorais e em episódios como o espantoso caso Master/BRB. Tudo coroado com a relevante expansão do crime organizado nos territórios, na vida econômica e nas instituições do País.

Nada disso é tratado na campanha eleitoral com seriedade.

Absoluta insensatez de nossas elites, que acham que sempre poderão se safar na crise, talvez em Portugal.

A insensatez não está apenas nos grandes lances.

Ela está na tentativa de salvar os Correios, instituição especializada em entregar cartas que ninguém mais escreve e que só nos últimos meses engoliu R$ 20 bilhões. E isso com uma diretoria sem nenhuma experiência em salvar grandes empresas (“turn around” no jargão profissional). Não vai funcionar.