Valor Econômico31 de jul.
Aceleração de data centers enfrenta gargalo de transmissão de energia
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Resumo
Expansão de data centers para IA enfrenta gargalo de transmissão de energia no Brasil; demanda do setor deve dobrar de 2026 a 2031 (de 2% para 4-5% do consumo nacional), com primeira temporada de leilão em 2026 gerando 38 de 43 solicitações de data centers somando 7.040 MW e R$ 159 bilhões em investimentos estimados.

Complexo de data centers da Renova, projeto de R$ 900 milhões construído próximo a parque eólico na Bahia para utilizar fonte limpa, sem o impacto de cortes por excesso de oferta de energia Divulgação A expansão da computação em nuvem e inteligência artificial (IA) ampliou a defasagem entre a velocidade do crescimento do setor de data centers e da capacidade de fornecimento de energia para sustentá-lo. Apesar da geração abundante no país, a concentração de parques eólicos e solares em regiões distantes do consumo demanda reforço extra no sistema de transmissão. A questão é que se os projetos de data center ficam em pé em 1 ano e meio a 2 anos, os de transmissão demandam cerca de 7 anos para serem entregues. Nas contas da Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais (Brasscom), a demanda de energia do setor deve dobrar de 2026 a 2031, quando a participação no consumo nacional salta de 2% para 4% a 5%. “É um crescimento acelerado em um mercado acostumado a ritmo alinhado ao PIB”, afirma o presidente executivo da Brasscom, Affonso Nina. A criação da Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão (PNAST), em 2025, mira otimização do planejamento do sistema ao trocar o sistema de fila de pedidos em ordem de chegada por temporadas de acesso à rede básica do Sistema Interligado Nacional (SIN), com exigência de projetos mais maduros. Na primeira temporada de leilão em 2026, os data centers responderam por 38 das 43 solicitações contempladas pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), somando 7.040 megawatts (MW), somando investimentos estimados em torno de R$ 159 bilhões. No total, o interesse de investidores por projetos de data center no Brasil alcança 38 gigawatts (GW) em pedidos de parecer de acesso à rede elétrica. “Há cinco anos nem tínhamos mercado de IA para data centers de 100 MW”, observa Marcela Martins, diretora de gestão energética da Ascenty. A estratégia da empresa para garantir energia inclui contratos de energia incentivada no mercado livre (PPAs), contrato de autoprodução fechado no início do ano com a Casa dos Ventos por cerca de R$ 2,5 bilhões para fornecimento de 110 MW médios, com participação acionária em dois empreendimentos com potência instalada superior a 1,5 GW previstos para 2027, e investimento de R$ 200 milhões em transmissão, com construção de linha de 35 quilômetros de Santa Barbara d’Oeste a Sumaré (SP), onde seu novo data center para IA já tem 90 MW contratados e deve alcançar até 180 MW. A linha deve entrar em operação em 2027 e depois será repassada à CPFL. Há o desafio de antecipar polos de desenvolvimento e pensar soluções regionalmente” “Há desafio de incorporar a escala e demanda de data centers ao setor elétrico, antecipando polos de desenvolvimento e pensando soluções regionalmente”, pondera Mauricio Amadeu, gerente de energia da Scala, que tem 13 data centers em operação e planeja a AI City em Eldorado do Sul (RS), projeto com investimento inicial de R$ 3 bilhões para 54 MW e potencial de expansão para até 4.750 MW. Não por acaso, cidades com subestações de energia com alta carga e disponibilidade de ponto de conexão de novas empresas de alta demanda estão na mira do setor. Segundo Thomas Brancati, CEO da Allrea, especializada em desenvolvimento imobiliário, entre junho e julho cinco empresas demandaram terrenos para data center em cidades como Sorocaba e Araraquara (SP), Rio de Janeiro, Nova Iguaçu e Queimados (RJ), Ponta Grossa (PR) e Joinville (SC). “A disponibilidade reduz o risco”, diz ele. Outra tendência é o desenvolvimento de projetos próximos à geração. A Casa dos Ventos estimula o movimento com iniciativas como o data center em parceria com Omnia e Byte Dance (dona do TikTok), com capacidade inicial prevista de 200 MW, em Caucaia (CE) - mais dois megaprojetos já estariam sendo planejados na cidade, ainda em fase preliminar. Em nota, a empresa defendeu a atração de grandes cargas eletrointensivas para a região para ampliar a eficiência da rede elétrica e reduzir o corte de geração por restrições de escoamento (“curtailment”). A Renova seguiu o mesmo caminho com data center com capacidade de até 85 MW em Igaporã (BA), próximo ao complexo eólico Alto Sertão III, parque de 432,6 MW. “Estamos usando energia que seria cortada do sistema”, conta o CEO, Sergio Brasil. O projeto consumiu R$ 900 milhões e teve parecer de acesso à rede básica para consumo aprovado em prazo reduzido. A meta agora é espalhar data centers tanto nas demais plantas geradoras projetadas pela empresa quanto desenvolvendo projetos para outras geradoras impactadas pelo “curtailment”. Para Rafael Martins de Souza, pesquisador do Centro de Estudos em Regulação e Infraestrutura da Fundação Getulio Vargas (FGV-CERI) e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), o descompasso entre desenvolvimento de data centers e fornecimento de energia poderia ser equacionado por possibilidades como redução de burocracia relacionadas a projetos de transmissão. Outra medida seria a indução de instalações próximas à geração com tarifas mais baratas, por exemplo. O problema é a divisão dos custos. “A ampliação da transmissão para atender data centres é paga por todos os consumidores. Talvez os data center devessem contribuir para expansão especial do sistema”, diz Djalma Falcão, professor emérito da Coope-UFRJ. “A autoprodução tem subsídios e descontos tarifários pagos por todos os consumidores”, acrescenta Lourenço Moretto, coordenador do Programa de Energia e Sustentabilidade do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec).