EstadãoClaudio Adilson Gonçalez2 de ago.

O novo cenário externo e os juros no Brasil

IAMacro

Resumo

Ambiente internacional deixou de ser desinflacionário; choques geopolíticos, fragmentação comercial e deterioração fiscal nas principais economias elevaram juros reais globais, prêmios de risco e probabilidade de novos choques de oferta em petróleo, gás, semicondutores e alimentos, enquanto protecionismo reduz eficiência produtiva das cadeias globais no médio prazo.

O ambiente internacional deixou de exercer a influência predominantemente desinflacionária das décadas anteriores. Choques geopolíticos recorrentes, fragmentação comercial e deterioração fiscal nas principais economias elevaram os riscos de ruptura nas cadeias globais de suprimentos e os prêmios exigidos pelos investidores. Como resultado, o piso dos juros internacionais, sobretudo dos juros reais de longo prazo, tornou-se mais elevado.

A guerra na Ucrânia e os conflitos no Oriente Médio parecem mais próximos de um impasse do que de uma solução. A crescente rivalidade entre grandes potências tornou maiores e mais frequentes os riscos de interrupção no fornecimento de petróleo, gás, fertilizantes, alimentos e semicondutores, além de bloqueios em rotas de transporte. Mais importante do que o encarecimento corrente desses bens é a maior probabilidade de novos choques de oferta, que elevam a inflação e reduzem o crescimento, dificultando a reação dos bancos centrais: combater integralmente a inflação pode aprofundar a desaceleração, mas tolerá-la aumenta o risco de efeitos secundários sobre salários, serviços e expectativas.

A Selicdeve ter outros aumentos de1ponto porcentual, indicou oBanco Central.

O protecionismo, sobretudo nos Estados Unidos, eleva no curto prazo o custo de bens e insumos importados. No médio prazo, a fragmentação comercial reduz a eficiência produtiva: empresas escolhem fornecedores não pelo menor custo, mas por critérios políticos, de segurança nacional ou de proximidade geográfica. Cadeias produtivas redundantes e subsídios à produção doméstica implicam custos maiores e menor produtividade. A inteligência artificial poderá elevar a produtividade; por ora, porém, os investimentos em data centers pressionam a demanda agregada.

Soma-se a isso a forte deterioração fiscal nos países desenvolvidos, em parte ligada às tensões geopolíticas. A maior insegurança estratégica tem levado os países europeus a ampliar expressivamente os gastos com defesa.

Nos Estados Unidos, segundo o Escritório de Orçamento do Congresso (CBO, na sigla em inglês), o déficit primário federal deverá recuar de 2,6% do PIB, em 2026, para 2,1%, em 2036. Já o déficit total subirá de 5,8% para 6,7% do PIB, devido ao aumento das despesas com juros.

Segundo o FMI, a dívida bruta consolidada do governo geral dos Estados Unidos, que abrange o governo federal e os governos estaduais e locais, deverá subir de 126% do PIB, em 2026, para 142%, em 2031.

Para o Brasil, esse novo normal eleva o piso dos juros reais necessários para atrair capital e exige prêmio de risco adicional numa economia com vulnerabilidades fiscais conhecidas. Ficou, portanto, mais difícil acelerar a redução da atual taxa básica de juros e conter o crescimento acelerado do endividamento público.