Brasil precisa se preparar para mundo em que choques climáticos como o El Niño serão mais frequentes
Resumo
El Niño com 97% de probabilidade de persistir até 2027 e 81% de chance de intensidade muito forte ameaça safras brasileiras de laranja, café, cana-de-açúcar e hortifrútis, impactando produtividade, planejamento agrícola e inflação.
Eventos climáticos extremos deixaram de ser exceção. Inundações no Rio Grande do Sul, seca na Amazônia e outros episódios semelhantes são cada vez mais recorrentes, e têm efeitos diretos sobre a inflação, o PIB e as contas públicas. Este ano, espera-se um fenômeno mais forte por conta do El Niño, aquecimento das águas do Pacífico acima da média, que influencia o clima global.
A origem de todas essas mudanças climáticas, incluindo a intensidade maior do El Niño, é o aquecimento global. A Organização Meteorológica Mundial dá como certo que a temperatura média global ultrapassará, até 2030, as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris.
O verão europeu registrou recordes, com destaque para 41,7ºC na Alemanha e 44,3ºC na França. Incêndios florestais forçaram mais de 300 mil pessoas a deixarem suas casas. O Financial Times calcula prejuízos da ordem de € 3,1 bilhões.
A agência climatológica americana informa que o El Niño já está estabelecido e continua a se fortalecer no Pacífico. O órgão estima 97% de probabilidade de o fenômeno persistir até o início de 2027 e 81% de chance de atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro de 2026.
No Brasil, as temperaturas devem ficar acima da média, com ondas de calor na faixa central do País. A combinação desse calor com chuvas abaixo da média no Centro-Oeste, Norte e Nordeste aumenta o risco de queimadas nos próximos meses.
Para o agronegócio, o cenário é de aumento dos riscos sobre a safra 2026/27. Já é possível projetar impactos para a produtividade e a qualidade de culturas como laranja, café, cana-de-açúcar e hortifrútis.
Será complexo o planejamento da produção no campo, o que implica dificuldade nas decisões sobre investimentos, área plantada e contratação de seguros. As consequências devem chegar rapidamente ao preço dos alimentos, inclusive com problemas na logística de transporte.
A crise climática já não pertence ao futuro, ela passou a integrar o ambiente econômico do presente. O Brasil precisa preparar sua economia para um mundo em que choques climáticos serão mais frequentes. Transformar essa realidade em oportunidade de desenvolvimento sustentável talvez seja a maior contribuição que o País possa oferecer ao mundo.
Estruturalmente, o fortalecimento do modelo energético brasileiro, a redução do desmatamento e políticas de compensação de carbono são algumas das contribuições do País ao manejo da crise climática. Não podemos ficar para trás nessa luta.